Elio não é o filme que a Pixar vai conseguir usar como pilar para uma nova fase

Texto: Adam William

Se tem algum estúdio passando por uma crise de confiança nos últimos anos, esse estúdio é a Pixar. Claro, a Disney em si tem tido alguns problemas com o público quando olhamos para a aceitação dos projetos de seus grandes estúdios – Marvel Studios e Lucasfilm principalmente –, mas o caso da Pixar parece ser mais drástico desde a pandemia do covid19, quando os executivos posicionaram o selo como um mero braço do Disney+. A estratégia não apenas deu errado como sujou a marca que trazia consigo um status de excelência inabalado mesmo com filmes mais divisivos como Carros 3 ou Valente. Mais do que isso, muitos fãs passaram a torcer o nariz para as inúmeras sequências que faziam parecer que a "velha” Pixar, o grande estúdio de ideias originais e emocionantes, havia acabado.

É nesse cenário de descrença que surge a nova animação do estúdio Elio, trazendo consigo um certo peso tanto para a Pixar quanto para a Disney. Isso porque o filme é “apenas” o terceiro projeto de 2025 que chega aos cinemas após uma produção extensa que conta com alterações e adiamentos. E ainda que a obra não seja um live-action – ou seja, não tenha problemas de refilmagem propriamente dita –, isso não evita que Elio soe tão retalhado e remendado quanto Capitão América: Admirável Mundo Novo e Branca de Neve. Apesar de que ao menos nesse último lançamento o estranhamento maior seja no aspecto narrativo do que realmente na montagem ou direção.

Originalmente dirigido por Adrian Molina – co-diretor do excelente Viva: A Vida é uma Festa –, a obra mudou de mãos e acabou sendo comandada por Domee Shi e Madeline Sharafian. Enquanto Sharafian é mais conhecida pela direção de curtas-metragens, Domee Shi carrega no currículo o surpreendente Red: Crescer é uma Fera, um longa cheio de ideias interessantes que se mesclam em um filme que ficou fadado ao lançamento no streaming. O resultado, um filme à seis mãos, é tão curioso quanto apático: Elio nunca parece inspirado como Viva ou Red, com uma história que aparenta ter muito a dizer, mas que insiste em se enrolar em si mesma em um conjunto de clichês que passam a se tornar um problema quando absolutamente nada parece minimamente envolvente.

Para começar, não existe de fato um conflito interno sendo elaborado. Sim, Elio é um garoto solitário e com dificuldades de fazer amigos, tem comportamentos e um jeito de ver o mundo muito particulares, mas fora isso ser pincelado pontualmente na obra, não há um desenvolvimento dessa questão. Pelo contrário, isso é logo deixado de lado para transformar o filme em uma aventura espacial que é simplesmente chata. Nem mesmo a relação do protagonista com um alienígena fofinho – que deve ter sido inserido posteriormente para que Elio tivesse um balde de pipoca legal, seguindo a tendência do momento – causa algum interesse, já que é uma daquelas amizades vistas dezenas de vezes em outros filmes. E pior ainda, quase sempre de maneira mais legal do que aqui.

Talvez o maior impacto negativo das mudanças seja o fato de que Elio tem forte dificuldade de criar um vínculo emocional efetivo. É notável como o filme vai sendo alterado pelos diversos momentos cansativos que surgem no meio da obra, algo incomum nos filmes do estúdio que são lembrados por criarem experiências emocionantes e envolventes. E o pior é que diante de uma época onde a Pixar ficou marcada pela ausência de histórias originais – por causa de tantas sequências –, assistir a uma história nova como Elio e notar que ela é completamente repetitiva e batida nos faz sentir ânsia ppelas sequências. Afinal, embora não sejam originais, elas ao menos trazem personagens que amamos.

Tudo que se aplica ao aspecto narrativo ao menos não pode ser dito da parte visual da animação. Elio é um filme lindo, desde a concepção visual dos cenários até a composição do protagonista que consegue definir bem sua personalidade. Não dá pra dizer se o filme já era visualmente belo ou se foi ainda mais lapidado com os adiamentos, mas o resultado final é muito agradável visualmente ainda que nem sempre tão ousado quanto poderia ser, já que o design dos alienígenas, por exemplo, é outro aspecto que soa familiar, como se a Pixar tivesse reaproveitado trabalhos da própria Disney para criar os personagens. Ao mesmo tempo, Elio claramente poderia ser pensado como um filme com outras camadas: há uma subtrama envolvendo a tia do protagonista que facilmente renderia um bom filme. Talvez até melhor do que o visto aqui.

Definitivamente, Elio não é o filme que a Pixar vai conseguir usar como pilar para uma nova fase. É cedo pra saber se o resultado abaixo da média é apenas um sintoma de uma drástica mudança de curso no estúdio como um todo – que afetou tanto animações quanto live-actions –, mas fica a torcida para que a Disney arrume a casa e devolva o estúdio para seu lugar de prestígio. O futuro sugere possibilidades interessantes, tanto com histórias novas como Hoppers quanto dando continuidade a franquias queridas do público como Toy Story, mas provavelmente será necessário mais do que dois bons filmes para renovar uma marca tão desgastada. Ao menos, eles estão tentando. Ou fazendo parecer que estão.

Nota:⭐⭐


Ficha técnica

Título Original: Elio
Direção: Madeline Sharafian, Domee Shi, Adrian Molina
Duração: 1h 39min
Gênero: Animação
Ano: 2025

Assista o trailer de Elio